Linha Amarela

Foto de Martin Péchy no Pexels


[CONTEÚDO SENSÍVEL:
Suicídio]

    Uma garota em um vagão de metrô. Seria aquele o primeiro vagão ou o último? O começo ou o fim do trem? Observando a partir da perspectiva do rumo do trem, aquele era o começo do primeiro vagão, mas para a garota era o último.
     Uma linha inacabada... Ou em construção? Acabou antes do fim ou só não teve a chance ainda de um final? Há muito é esperada a conclusão daquela linha, mas só há a esperança de um dia ser terminada.
     A jovem seguia sua viagem em direção à Luz. Da primeira estação, Butantã, à última. Ela não se sentava, mesmo sabendo que a viagem seria relativamente longa e sua mochila começava a pesar em suas mãos. Observava a vida ao seu redor, em pé.
     Logo na primeira estação, viu duas crianças entrarem acompanhadas de sua mãe, ou ao menos era o que a garota pensava ser a mulher, logo depois dela. As duas crianças brigavam e a mãe, por sua vez, auxiliava no escândalo brigando com as duas, parecia exausta.
     A cena lembrou a jovem de sua infância, quando seus pais implicavam com tudo o que ela fazia. Isso não mudou muito ao longo dos anos.
     Não demorou muito, na próxima estação, algumas crianças mais velhas entraram no mesmo vagão. Elas achavam que as brincadeiras com o amigo não eram nada além de brincadeiras, diversão, mas essa jovem que os observava sabia o quanto uma brincadeira pode apertar bem no fundo da sua maior ferida. A criança aguentava calada, apesar de seus olhos suplicarem para que parassem, que arranjassem outro objeto de zoação. Ela sabia, tanto quanto ele, que se ele dissesse em voz alta o quanto aquilo o desagradava, iria ser pior.
     Tantas pessoas saíam do vagão para mudar de linha na estação Pinheiros, bom seria se o garoto conseguisse mudar de vida com a mesma facilidade, pensou a jovem.
     O sinal soa seu aviso, as portas se fecham e os garotos continuam a brincar e as crianças a gritar.
     Uma voz anuncia a próxima estação: Faria Lima. A garota brinca consigo pensando no que “faria” diferente. Muitas coisas. Não teria confiado nas pessoas como confiou, principalmente. Quando se está cheio de problemas, um ouvinte pode ser tudo o que alguém precisa naquele momento.
     Ela achava que tinha um bom ouvinte, mas ele contou seus maiores segredos e temores para todos que quisessem ouvir, durante o início de sua adolescência. Sim, ela não teria contado nada àquela pessoa.
     Ah, ela sabia como aquele garotinho se sentia. Todos os seus problemas sendo vaiados, utilizados como forma de entretenimento para os outros.
     A jovem mal se deu conta de que já estava em outra estação, Fradique Coutinho. O tempo passava rápido, as crianças não calavam a boca e tornavam um pouco difícil pensar.
     Dizem que o tempo cura tudo, porém aquela jovem não podia concordar. Mesmo que tivesse mudado de escola e anos tivessem passado, ela ainda tinha problemas para confiar nos outros.
     E nessa escola nova, ela era vaiada? Não, pior ainda… Ela estava sozinha. Não conseguiu fazer novas amizades, pois não queria conversa. Isolava-se de todos e pouquíssimos tinham coragem para tentar invadir seu espaço.
     Alguns a achavam esnobe, outros a achavam estranha. Ela só se achava solitária.
     E, enquanto o tempo passava tão rápido para todos, para a garota se arrastava durante cada aula, durante cada dia entre aquelas quatro paredes.
     Chegou a estação Paulista e só então a garota percebeu que em seu devaneio, não viu que todas as crianças que observava e a mãe haviam deixado o vagão. Estava em mais uma conexão de linhas e um lugar importante da Capital, importante como o amor pra si.
     A garota poderia tentar manter todos afastados, mas não poderia manter seu coração afastado do amor.
     Foi em seu silencioso mundo, sem amigos, que aprendeu a observar os outros. O garoto que sentava logo a frente durante as aulas tornou-se um alvo interessantíssimo de suas observações.
     Ela sabia observar, mas não sabia ser discreta. Ele logo percebeu seus olhares, em parte porque também tentava olhar para ela, achava-a misteriosa e aquilo o intrigava.
     Não demorou muito mais para que ele tentasse se aproximar dela. Ela, envolvida pelo romance iminente, abaixou a guarda e o deixou entrar em seu coração.
     A garota era tímida, eles mantinham o relacionamento em segredo. Ninguém via nada, ninguém ligava.
     Ninguém ligava… Até descobrirem. Você deve se lembrar das pessoas que a achavam estranha. Essas pessoas começaram a brincar com o garoto sobre seu relacionamento com a nossa jovem do metrô.
     O garoto cortou suas relações com ela por vergonha.
     Ela voltou a ficar sozinha.
     Estação República, conexão com a linha vermelha. A penúltima chance de trocar de vagão, de trocar de trem, de trocar de linha. Entretanto, a garota estava decidida, ela iria até o fim.
     Seus pais eram grande parte do tempo ausentes de sua vida e essa pequena parte do tempo em que estavam lá era para lhe repreender sobre suas notas, seus atos, suas roupas, seu cabelo. Eles só não criticavam seus amigos porque a garota não os tinha, criticavam a falta deles.
     Eles não viam seus problemas, sua melancolia. Não viam que a cada dia que passava, a garota se importava menos que as coisas não iam como ela sonhou quando era uma criança.     A esperança há muito deixara de lhe servir. Se ela fugisse de tudo, poderia ser feliz? Morreria de fome.
     A expressão “só nascendo de novo” fazia muito sentido para a garota, ela sentia que só poderia ser feliz se nascesse de novo.
     Se ela nascesse de novo, deixaria de ser invisível para todos como ela era invisível naquele metrô. Mais uma entre tantos.
     E finalmente, a última estação.
Ao desembarcar na estação Luz, alguém roubou seu único pertence: sua mochila. Assim como roubaram toda a sua felicidade durante a vida inteira. Era assim que terminaria sua jornada pela linha amarela do metrô de São Paulo. 
     Ao invés de sair da estação, como todos os viajantes que chegam ao seu destino, a garota transitou pela última conexão.
     Seguiu até a plataforma da linha azul.
     Não se importava se Tucuruvi ou Jabaquara.
     Não se importava com mais nada.
     Aguardou até o trem estar próximo e se jogou.
   Chegara a seu destino.
  
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