Madrugada Vermelha

Foto de Elti Meshau no Pexels


    Despertei com um som gutural vindo de algum lugar próximo. Em meio à névoa de sono, não reconheci que tipo de ser ou máquina era capaz de emitir tal ruído e em poucos segundos já não sabia descrever como soava exatamente. Talvez tivesse sonhado o barulho, mas as batidas aceleradas do meu coração não me deixavam acreditar em tal teoria. Havia algo de errado na casa.
    Alguns meses antes, eu poderia simplesmente acordar meu pai e pedir que vasculhasse os arredores junto comigo, mas eu havia saído de casa e começado o sonho de todo jovem adulto de morar sozinha. Parecia até uma piada quando me lembrava das contas a pagar, o medo de perder o emprego enquanto ainda estava na experiência e a solidão que era chegar em casa e só ter um bichano para me saudar. Belo sonho.
    Acendi a luz do abajur e suspirei aliviada ao não ver mais do que as sombras comuns dos móveis.
    Alguns segundos depois, ouvi algo. Não parecia o mesmo som de antes, mas ainda era assustador. Era... Um gotejar na pia do banheiro. Revirei os olhos exasperada comigo mesma por ser tão medrosa e levantei a fim de fechar melhor aquela droga de torneira.
    Como deixaram alguém tão covarde como eu inventar de morar sozinha? Por que ninguém me avisou que qualquer barulho às três da manhã me deixaria tão aterrorizada?
    Sempre achei que o maior desafio que encontraria seriam baratas voadoras, jamais imaginei que toda madrugada pareceria um filme de terror.
    Alcancei o banheiro a passos lentos, ligando todos os interruptores por onde passava. Quarto, sala de estar e, enfim, o banheiro.
    Na pia, as gotas d'água continuavam a cair devagar e despreocupadamente. Girei, fechando a porcaria da torneira de vez, e o gotejamento cessou. Agora havia apenas um silêncio profundo.
    Suspirei novamente, sentindo uma repentina paz de espírito e levantei o olhar para o espelho acima da pia. Um calafrio percorreu minha espinha ao perceber um vulto atravessar no fundo à minha esquerda, fora do banheiro. Pisquei e não houve mais movimentação.
    Fiquei paralisada de tanto horror, sequer conseguia piscar novamente. Alguém estava se esgueirando pela minha casa no meio da noite.
    Ok, eu tinha duas opções. Poderia tentar voltar para o meu quarto, onde as janelas tinham grades e eu ficaria encurralada, trancar a porta e ligar para a polícia enquanto fazia uma barricada ou poderia tentar alcançar a porta da frente, que ficava muito mais longe, e fugir.
    Enquanto tentava me decidir sobre como proceder, percebi que havia um problema em ambos os planos. Pode parecer estúpido para algumas pessoas se preocupar com o gato em uma situação dessas, mas eu simplesmente não conseguiria deixar Bartolomeu para trás.
    Afinal, onde ele havia se metido? Será que estava escondido em algum lugar? Se fosse o caso, eu poderia fugir com a consciência um pouquinho menos pesada.
    Todas essas coisas passavam apressadas pela minha mente, apenas um momento havia se passado desde que eu vira o vulto.
    Talvez estivesse pirando, talvez não fosse coisa alguma. Um truque de luz, meu cérebro pregando peças ou alguma besteira assim.
    Fechei os olhos. E se eu visse de novo ao abri-los? Quase valia a pena voltar para a cama de olhos fechados. Quase. A escuridão continuava sendo mais assustadora do que a visão.
    Meu corpo se mexeu lentamente, quase como se não fosse meu, virando em direção à sala. Abri os olhos. Nada.
    Tudo bem, hora de encontrar o gato.
    — Bartolomeu? — Chamei baixinho. — Bartolomeu, cadê você?
    Silêncio. Algo definitivamente não estava certo. Bartolomeu nunca deixava de me responder com um miado, a menos que estivesse assustado.
    Procurei ao meu redor por algum objeto que eu pudesse usar para me defender e julguei que o rodo seria minha melhor opção. Agarrei-o com força e saí do banheiro olhando freneticamente para todos os lados.
    O ambiente estava bem iluminado graças a lâmpada que eu havia acendido antes e nada parecia fora do lugar. Era apenas a minha sala de estar. Normal, sem vultos, sem pessoas estranhas. Sem gato.
    Engoli em seco e decidi me aventurar até a cozinha, o único cômodo que continuava escuro e a única possibilidade de paradeiro para Bartolomeu.
    Ao me aproximar desse cômodo, reparei que um odor estranho vinha daquela direção. Um cheiro forte e levemente familiar que, por algum motivo, me trouxe a ideia de um enorme portão enferrujado.
    Provavelmente, eu já sabia o que era aquele cheiro, mas minha mente em choque se recusava a processar aquele fato. Não, não era possível.
    Mas era, pois quando acionei o interruptor da cozinha, fui atacada com a visão mais terrível que já havia visto na vida.
    Tudo era vermelho. Vermelho no chão, vermelho na pia, vermelho na faca. E, então, tripas, restos. Os restos de um Bartolomeu estripado na pia da minha cozinha.
    O som que me despertou e antes parecia desconhecido, naquele momento estava claro como o dia, aquele era Bartolomeu agonizando antes de ser silenciado para sempre.
    Em algum lugar, em um canto remoto do meu cérebro, veio a percepção de que quem fizera aquilo, não havia terminado ainda. Fosse qual fosse o objetivo daquele horror, havia sido interrompido quando levantei da cama e o autor ainda estava à espreita.
    Precisava me mexer, precisava sair dali o mais rápido possível, mas meu corpo não respondia, só conseguia ficar encarando o que havia sobrado de Bartolomeu... Meu pequeno e adorável Bartolomeu.
    E a única coisa que consegui fazer antes de ser engolida pelo vermelho foi gritar.

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