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| Foto de Ylanite Koppens no Pexels |
Tudo começou quando recebi aquela estranha e, convenhamos, antiquada carta.
Ela apareceu misteriosamente na minha caixa de correio numa manhã de Segunda-feira. O envelope era feito de papel sulfite rosa com estrelinhas coloridas coladas porcamente por toda a sua extensão superior. Parecia obra de uma criança de 5 anos ou talvez até menos. No verso havia meu nome escrito à tinta preta em uma letra cursiva tremida: Miguel Ferreira.
Logo reparei que a pessoa que havia enviado aquilo não fazia ideia de como o envio de cartas funcionava, pois meu nome estava escrito no lado errado do "envelope".
Levei a carta para dentro junto com o restante das correspondências. Que criança eu conhecia que poderia ter feito aquilo pra mim? Não conhecia alguma na qual pudesse pensar. Deixei tudo que era destinado aos meus pais na mesa da cozinha e subi para o meu quarto, ainda avaliando as estrelinhas no envelope. De certa forma, era fofo.
Quando cheguei ao conforto da minha cama, abri-o o mais delicadamente possível sem destruir as estrelinhas. Não foi uma tarefa fácil. Dentro havia apenas a impressão de um texto, logo me pus a ler o que dizia.
"Olá, Miguel! Se isso chegou em suas mãos, então meu plano está dando certo.
Por enquanto, você não pode saber quem sou eu. Digamos por ora que sou apenas sua admiradora secreta."
Admiradora secreta? Por essa não estava esperando. O mais surpreendente, porém, era que aquilo definitivamente não era obra de uma criança. Uau. Como alguém poderia ter falhado tanto em fazer um envelope decente?
"Já nos conhecemos há algum tempo, mas nunca tive coragem de me declarar para você.
Se estiver curioso para saber quem sou eu, proponho que façamos um jogo. Será como uma caça ao tesouro, mas ao invés disso será uma caça à admiradora secreta!
O que acha? Se concordar, procure a Sabrina antes das aulas começarem e pergunte a ela se tem algo pra você.
Desculpe, mas não consegui pensar noutra forma de fazer isso."
Não pude evitar rir daquilo. Ela sequer assinou! Quem quer que fosse, nunca havia escrito uma carta na vida, disso eu tinha certeza. Aquilo no máximo poderia ser chamado de bilhete.
E que história era essa de "não consegui pensar noutra forma"? Ela havia criado uma caça ao tesouro! Certamente existiam zilhões de modos mais simples de se declarar do que aquele. Muitos deles não dariam tanto trabalho para mim quanto aquele provavelmente daria. Só de pensar eu já estava cansado.
Claramente não era Sabrina, a garota da minha escola citada na "carta". Ela não se entregaria tão fácil assim. Porém, devia ser alguma de suas amigas. O problema era que Sabrina tinha muitos amigos. Eu mesmo era um deles.
Quem quer que fosse, escolheu bem a quem pedir ajuda, Sabrina jamais me contaria quem era e eu continuava sem fazer ideia de quem pudesse ser. Ao menos havia descartado a hipótese de ser uma criança e isso já era um alívio.
Todavia, eu realmente queria saber quem era a tal admiradora secreta? Eu não estava realmente afim de alimentar a paixão de alguma desconhecida esquisita.
Não, iria apenas ignorar a carta e pronto. Vida que segue. Com sorte ela entenderia o recado.
Como de costume, passei em frente a casa de minha amiga de infância, Mari Nakamura, no trajeto para a escola e suspirei tristemente ao ver um caminhão de mudanças em frente à residência. Alguém havia alugado a casa onde ela havia morado. Eu sentia tanto sua falta...
Decidi mandar um áudio para ela.
— E aí, Mari? Como foi seu dia? — perguntei e soltei o botão do gravador. Mari agora morava no Japão, o que significava que ela estava 12 horas à frente e lá já estava anoitecendo.
Não esperava realmente que ela respondesse na hora, porém logo ela me retornou com uma chamada de voz.
— Migueeeeeel! — ela cantarolou. — Você não vai acreditar!
— O que aconteceu? — perguntei surpreso com sua animação.
— Lembra que eu te falei que todos eram muito fechados e muito difíceis de se aproximar na escola? Acontece que consegui dar um jeito nisso! — ela contou alegremente.
— Ah... Que legal! — tentei disfarçar a pequena pontada de ciúmes que senti. Não entenda mal, eu queria que ela fizesse novos amigos. Apenas tinha medo de que ela se esquecesse de mim. Eu certamente não a esqueceria tão cedo, mas nada garantiria que o contrário não aconteceria.
A verdade é que eu estava apaixonado por Mari, sempre fui. Mas de que adiantava nutrir aqueles sentimentos se ela morava do outro lado do mundo agora?
A saudade e a frustração que eu sentia haviam me tornado um cara meio chato e eu sabia disso, mas estava dando o meu melhor para superar isso. Não é como se fosse fácil.
O semáforo de pedestres abriu, então atravessei a rua.
— E você, alguma novidade? — ela perguntou.
— Na verdade, não. Está tudo um tédio por aqui.
— Hm… — ela murmurou pensativa. Na rua, um carro buzinou para o outro que havia freado bruscamente na sua frente. — Espera, você está na rua? Miguel Ferreira, ficar com o celular na rua é perigoso!
— Foi você quem me ligou! — disse me defendendo e ela fez um som descontente do outro lado.
— Toma cuidado, Miguelito. Tenha um bom dia! — despediu-se e desligou.
Liguei uma música qualquer nos fones para tentar me animar um pouco. Eu amava falar com ela, mas quando desligava a chamada o mundo ficava tão silencioso...
Percebi Sabrina me encarando quando cheguei à sala de aula e a ignorei. Não, eu definitivamente não queria saber o que ela tinha pra mim.
No final da primeira aula, porém, ela cansou de esperar e veio até mim.
— Você pode ser menos babaca e só fazer o que a menina está te pedindo? — ela suspirou e jogou um pacotinho marfim na minha mesa.
— O que é isso? — perguntei encarando o pacotinho, mas sem fazer menção de pegá-lo.
— Abre e você vai saber — ela deu de ombros e saiu da sala com algumas de suas amigas. Observei as garotas saírem, tentando identificar algo que entregasse se alguma delas era a admiradora secreta, mas nenhuma delas parecia suspeita.
Eu não queria entrar no jogo da garota desconhecida, mas confesso que fiquei curioso com a reação de Sabrina. Ela devia gostar muito da garota se estava tão puta comigo por não querer cooperar com aquela brincadeira ridícula.
Finalmente entreguei-me à curiosidade e abri o pacotinho. Dentro havia um recibo de devolução da biblioteca em nome de Sofia Santana, uma outra garota do meu ano. Ela era uma garota doce e sempre foi legal comigo. Nunca havia pensado que ela poderia pensar em mim como algo além de um amigo. Poderia até jurar que ela gostava do meu amigo, Fernando, na verdade. Seria ela a admiradora secreta?
Assim que tocou o alarme sinalizando o início do intervalo, fui para a biblioteca e dei de cara com Sofia logo na porta.
— Ainda bem que não nos desencontramos — ela sorriu e apontou para dentro. — A próxima pista está lá dentro.
— Não é você? — perguntei um pouco desapontado.
— Não — ela riu da minha expressão. — Ela não te disse que era uma caçada? Não vai acabar assim tão rápido.
— Ela disse, mas... — Eu mal havia começado e já estava ficando cansado daquele joguinho bobo.
— Vá logo, antes que comece a próxima aula! — ela me empurrou para dentro da biblioteca e seguiu seu caminho. — Que os jogos comecem!
Ok, não era nem Sabrina, nem Sofia. Ao menos a lista diminuía de possibilidades diminuía.
Peguei o recibo novamente e procurei mais alguma dica do que eu supostamente deveria fazer, mas o nome do livro que Sofia havia retirado estava rabiscado e ilegível. Parece que minha admiradora não gostava muito de facilitar o processo.
— Posso ajudar? — Antônio, o bibliotecário, me perguntou ao me ver ali parado feito uma estátua deslocada.
— Hm, eu queria pegar um livro, mas eu esqueci o nome — menti. — A Sofia pegou ele um dia desses, parecia interessante.
Antônio sabia que Sofia e eu éramos amigos, não pareceu desconfiar de nada de estranho na situação.
— Ela retira vários livros, vai precisar ser mais específico — ele disse.
Pensei por um momento e lembrei da última coisa que Sofia havia dito. "Que os jogos comecem"... Eu já ouvira aquilo em algum lugar.
— Você sabe que livro ela pegou que tem algo a ver com jogos?
— Jogos Vorazes? Ela pegou A Esperança recentemente, mas você teria que ler os outros dois antes... — ele disse procurando algo em seu computador. — Aqui. Estão no terceiro corredor.
— Obrigado, Toni — agradeci e segui apressado para a estante indicada. Havia apenas alguns minutos antes do intervalo acabar.
Encontrei os livros rapidamente e comecei a olhar a lista de assinaturas no verso em busca do nome de Sofia. Não haviam muitas cópias, por isso achei rapidamente e, só para não deixar o bibliotecário curioso, peguei qualquer exemplar do primeiro e segundo livro da trilogia também.
— Sabe, você pode simplesmente pegar um e depois os outros quando terminar de lê-los... — ele arqueou as sobrancelhas.
— Eu leio bem rápido. — menti novamente e ele deu de ombros aceitando a resposta.
Antônio registrou meu nome e os títulos no sistema e me devolveu os livros.
— Você tem 15 dias para ficar com eles, se não devolver dentro do prazo vai gerar uma multa.
— Tudo bem — eu disse guardando os livros e fui correndo para a sala da minha aula seguinte.
Quando na aula seguinte encontrei com Theo, um de meus amigos, não tive coragem de lhe contar sobre a carta. Estaria tudo bem se eu não tivesse aceitado entrar naquela caçada idiota, mas agora seria alvo das brincadeiras dele e não estava muito afim de cavar minha própria cova.
Devido a isso, não tive tempo de olhar o livro com atenção até o almoço, quando Theo finalmente desgrudou de mim para sentar com sua namorada.
— Ok... Vamos ver... — sussurrei comigo mesmo folheando aquela cópia de A Esperança e quase no final do livro encontrei um marcador de papel e uma passagem destacada.
"Necessito é do dente-de-leão na primavera. Do amarelo vívido que significa renascimento em vez de destruição. Da promessa de que a vida pode prosseguir, independente do quão insuportáveis foram as perdas. Que ela pode voltar a ser boa."
Li a citação, mas não consegui identificar se nela havia uma dica ou não, por isso passei a me dedicar ao marcador em si. Havia um desenho bobo de um cachorrinho dizendo "Quem é o au-autor?"
O nome da escritora, Suzanne Collins, também não me trouxe iluminação alguma de quem poderia ser a garota misteriosa. Talvez "autor" se referisse a outra coisa... Talvez...
Olhei o verso do marcador e nele dizia que havia sido produzido artesanalmente pelo clube de leitura da escola. Lavínia era a única que eu conhecia naquele clube com habilidades artísticas para fazer algo como aquilo. E ela era amiga de Sabrina e Sofia. Só podia ser ela.
Precisei fazer algumas perguntas, mas por fim consegui localizar Lavínia.
Não era dia de encontro do clube, mas ela me esperava sozinha na sala e sorriu quando me viu, como se soubesse que eu viria. Então eu estava certo, era ela.
— Descobri você — eu disse exibindo o marcador.
— Descobriu a próxima pista, no caso. — ela disse e me estendeu uma caixinha preta.
— Não é você? — questionei frustrado. — Pelo amor de Deus, eu só quero acabar com isso logo!
— Não, não sou — ela me deu um sorriso compreensivo, como se soubesse de algo que eu não sabia, o que era verdade. Tomei a caixa de sua mão com um suspiro irritado.
— Obrigado — resmunguei.
— Você vai ficar feliz no final, não se preocupe — ela disse apenas e se retirou, deixando-me sozinho na sala.
Claro, eu ficaria muito feliz por encontrar a pessoa que me fez ficar rodando a escola inteira igual uma barata tonta.
Dentro da caixinha havia um pendrive preto simples de 8gb. Nunca que eu iria colocar um pendrive desconhecido em um computador meu.
Próxima parada, laboratório de informática.
Na nossa escola havia um laboratório que permitia o acesso dos alunos. Só rezava para que não houvesse algo comprometedor dentro daquele pendrive e, se tivesse, que ninguém conhecido me flagrasse acessando-o.
Para a minha sorte, o laboratório estava praticamente vazio. Peguei o último computador no canto, só por precaução, e encaixei o objeto na entrada correta. Logo o sistema abriu uma pasta e nela havia apenas um vídeo. Inseri meus fones de ouvido e dei play.
A música de fundo era uma que eu conhecia muito bem, Talking to the Moon do Bruno Mars. Porém, não era à música que voltei minha atenção e sim ao texto que passou a ser exibido na tela. Não havia nada de incrível em seu design, eram apenas letras amarelas em um fundo escuro, salpicado por pontinhos brancos que remetiam a um céu estrelado. Já o conteúdo do texto, isso era outra história.
"Eu gosto de você há tanto tempo que nem sei dizer quando esse sentimento começou. "Por que você está me fazendo passar por tudo isso?" você deve estar pensando. À essa altura você pode estar pensando que eu sou louca, mas a verdade é que eu apenas queria fazer isso de um modo especial. Então, obrigada por chegar até aqui. Significa muito pra mim.
Existem diversos motivos que eu poderia trazer aqui para explicar por que resolvi me declarar só agora, mas o principal é: Eu não aguentava mais guardar isso pra mim, mesmo morrendo de medo de perder sua amizade ao expor o que sinto.
Mas do que adianta continuar sendo sua amiga quando eu quero mais do que isso? Cheguei à conclusão de que prefiro me arriscar aos 45 do segundo tempo e perder o jogo do que simplesmente aceitar um empate.
Miguel, eu gosto de você, mas não se preocupe se não puder corresponder aos meus sentimentos. Eu posso superar isso, eu acho. Só quero que você saiba, apenas isso."
Uau. Aquilo foi intenso.
O vídeo em si era simples e não indicava que a garota soubesse realmente fazer edição de vídeo, mas o texto me atingiu em cheio. Agora estava curioso para saber quem era de uma forma diferente, porém como se tratava de uma amiga de longa data não podia deixar de me preocupar em magoar seus sentimentos. Por Deus, quem naquela escola poderia gostar tanto assim de mim? Quem quer que fosse, havia escondido muito bem. Eu não fazia ideia. O que ela não tinha de habilidades artísticas, ela tinha de omissão dos sentimentos.
O vídeo acabou e eu fiquei me sentindo perdido, sem fazer ideia do que poderia ser a próxima dica ou se sequer havia alguma. Olhei o pendrive com atenção, reassisti ao vídeo e procurei pastas ocultas. Nada encontrei.
Estava quase desistindo quando notei o nome do arquivo do vídeo. Por que era "10"? A princípio pensei que poderia ter algo a ver com uma data, mas na verdade...
Lembrei que o número 10 era uma camisa importante no futebol e a nossa escola, vencedora dos últimos campeonatos interclasse, era destaque no esporte. Aos 45 do segundo tempo...
Era um tiro no escuro, mas eu conhecia o nosso camisa 10.
— Não, não me diga que o Fernando está envolvido nisso... — sussurrei para mim mesmo em estado de negação. Porém, agora que havia pensado naquilo, tinha certeza de que era isso. Toda pista me levava a alguém e a única pessoa possível era ele.
Guardei o pendrive e fui até o campo. Lá encontrei Fernando treinando.
Ele parou quando me viu e veio correndo na minha direção. Pela sua expressão divertida eu já sabia que estava certo.
— Até você, cara? — perguntei. No fundo rezava para ele dizer "Ãn?" e provasse que eu havia me enganado.
Para meu desgosto, ele riu.
— Cara, você acha que eu ia perder isso? Há quantas horas você está tentando descobrir quem é ela? — Fernando deu um soco em meu ombro de brincadeira. — Você é muito lerdo.
— Então me fala logo quem é, caramba! — falei irritado, mas Fernando só riu mais ainda da minha cara.
— Até parece. Só vou falar o que ela pediu e isso foi... — ele fingiu tentar lembrar. — Você é muito lerdo!
— Me fala logo a porcaria da dica, mano — de todas as pessoas que ela poderia ter pedido… Por que havia escolhido Fernando? Era simplesmente impossível falar sério com aquele cara.
— Tá, tá. Você devia relaxar...
Fiquei esperando ele falar, mas Fernando apenas ficou me encarando.
— O que é? Fala logo!
— Eu já falei. Você devia relaxar.
— Ela disse isso? — perguntei exasperado. Sinceramente, apenas o respeito à garota que supostamente era minha amiga impedia que minha paciência se esgotasse e eu desistisse naquele momento.
— Depois você reclama quando eu te chamo de lerdo. Ela disse: Você. Devia. Relaxar! — ele balançou a cabeça e voltou correndo para o treino. — Depois me fala quantos anos demorou pra descobrir!
Apesar de tudo, Fernando e eu éramos amigos. E nada me irritava mais do que passar vergonha na frente dos meus amigos, eles não perdoavam nada. Ele me zoaria por meses.
Mas, tá. Você precisa relaxar.
Você precisa relaxar.
Talvez fosse na piscina. Todos vão relaxar na piscina.
Fui até a área da piscina da escola, mas não havia pista alguma lá. Ela nem estava em uso. Foi apenas uma grande perda de tempo.
Se bem que... Eu não costumava ir lá para relaxar, eu ia para a sala de música.
Eu sou realmente muito burro, pensei.
Fui dessa vez para a sala de música e lá encontrei em cima do piano uma partitura de Can't Help Falling In Love do Elvis Presley. Sorri ao ver aquilo. Essa garota me conhecia bem.
Eu amava tocar aquela música, principalmente quando minha irmã e Mari cantavam junto comigo. A lembrança de minha melhor amiga ardeu no meu peito. Se Mari estivesse ali, será que já teríamos encontrado a admiradora secreta? Com a ajuda dela seria bem mais fácil. A não ser que ela também estivesse envolvida nos planos da garota. Era uma possibilidade, já que dizia ser minha amiga e parecia uma bem próxima. Ela com certeza conheceria Mari também.
Agora eu sabia quem era. Só podia ser ela... Emily.
Era a garota mais próxima de Mari na escola e, fora ela, a única que talvez soubesse o quanto tocar aquela canção me acalmava.
Deixei a sala de música. Precisava encontrar Emily antes que ela saísse da escola. O que diria a ela? Não queria ser indelicado, afinal, ela havia feito tudo aquilo para mim. E era muito querida não só por mim, mas principalmente por Mari também, não podia simplesmente partir seu coração e ir embora.
Quando finalmente a encontrei, ela estava no gramado lendo um livro.
— Emily... — eu disse quando me aproximei o suficiente para ser ouvido. Ainda não sabia o que lhe diria.
Emily abaixou o livro e imediatamente começou a rir.
— Ela estava certa! Ela disse que você ia pensar que sou eu! — ela riu ainda mais, me deixando totalmente confuso.
— Não é você? Então quem...?
Eu estava por um fio de jogar a consideração por minha admiradora no lixo e desistir de vez daquela história só para parar de fazer papel de trouxa na frente de todo mundo quando Emily sacou de sua bolsa uma chave de armário e jogou pra mim.
Não era qualquer armário. Era o armário dela.
Aquilo me deixou bem confuso. Mesmo em outro país, parecia que Mari havia conseguido se envolver na caçada também.
Tremendo levemente, deixei Emily ainda rindo da minha cara e fui até onde sabia que estava o armário que um dia foi de minha melhor amiga.
Não pude evitar ficar um pouco tenso com aquilo. Eu até mesmo evitava passar por aquele corredor sempre que podia.
Encontrei o armário e a chave o abriu com facilidade. Não havia coisa alguma dentro, com exceção de um papel que exibia "Não precisa mais sentir minha falta" escrito à caneta em uma caligrafia que reconheci imediatamente.
Encarei aquele papel, totalmente esquecido de como respirar.
Mari.
Mas como?
— Estou de volta — ouvi aquela voz falar atrás de mim e me sobressaltei ao ver Mari, tão pequena quanto me lembrava, parada a alguns metros. Ao vivo e em cores.
Como se estivesse em um filme, senti o papel deslizar de minhas mãos tão lentamente que parecia estar em câmera lenta e, congelado, observei Mari se aproximar e me abraçar com toda a sua força.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei ainda estupefato.
— O que você acha? — ela riu e o som de sua risada me descongelou. Devolvi o abraço com tanta força que ela me bateu para que a soltasse. Eu só podia estar sonhando. Não era possível.
— Quando você voltou? — perguntei boquiaberto quando finalmente a soltei.
— Há dois dias — ela sorriu com travessura.
— E não me falou nada!?
— Queria fazer essa surpresa. Esse foi o jeito de resolver meus problemas na escola que eu tinha te falado. Meus pais acharam melhor voltar já que eu não estava me adaptando muito bem no Japão — Mari parecia mais nervosa que de costume.
Talvez fosse porque... Espera, Mari era...
— Você é a minha admiradora secreta? — exalei incrédulo.
— Bingo! — ela riu nervosamente.
— Isso significa que você gosta de mim? — Não me julgue! Eu estava extremamente confuso, muita informação para processar de uma só vez!
— É claro que eu gosto de você, Miguelito. Esse tempo que passei longe me fez perceber que... Se fosse para voltar, eu não queria perder tempo fingindo que não. É preciso aproveitar o momento, sabe?
Olhei para aquela garota que por tanto tempo senti como se tivesse levado um pedaço de mim para o outro lado do mundo junto com ela. Olhei-a enquanto caía a ficha de que ela havia voltado e que eu não precisaria mais me sentir daquela forma. E a beijei quando finalmente entendi o que ela quis dizer quando afirmou gostar de mim.
O beijo de Mari era tudo o que eu queria e o melhor prêmio que aquela estúpida caça ao tesouro poderia ter me dado.
Em falar nisso...
— Cara, o que foi esse negócio de caça ao tesouro? Fiquei igual um idiota rodando a escola inteira procurando essas pistas. — reclamei. Apesar disso, não parei de sorrir e muito menos a soltei de meus braços. Jamais a deixaria se afastar de mim novamente.
— Eu sei — ela disse. — Eu jurava que você ia perder a paciência antes de chegar ao final e estragaria tudo.
— Estava com paciência nem para começar. Não tinha um jeito mais fácil de me surpreender, não?
— Para de reclamar, Ferreira. — Mari rolou os olhos e não pude resistir a lhe roubar mais um beijo.
— Só mais uma coisa e eu juro que paro de reclamar.
— Ok, o que foi? — ela fez uma careta adorável.
— Você precisa aprender a fazer cartas. Uma criança de 5 anos faria melhor.
— MIGUEL FERREIRA! — ela se soltou de meus braços.
— Obrigado por voltar — disse abraçando Mari novamente, mesmo ela tentando me impedir de segurá-la ali.
— Já estou arrependida — ela fez um biquinho.
— Agora é tarde — eu ri e ela bagunçou meus cabelos.
Jamais imaginaria naquela manhã que aquela carta ridícula pudesse me trazer tanta alegria quanto eu sentia naquele momento.
Lista dos envolvidos
Sabrina — foi incumbida de forçar Miguel a participar, mesmo que ele não quisesse;
Sofia — assim que soou o sinal do intervalo, foi correndo deixar o marcador dentro do livro certo;
Lavínia — Mari pediu que fizesse o marcador e que ficasse na sala do clube após as aulas esperando Miguel aparecer. Ela devia lhe entregar a caixinha com o pendrive;
Fernando — Só precisava esperar o Miguel aparecer para lhe dizer "Você precisa relaxar";
Emily — Precisava entregar a chave do armário de Mari a ele;
Theo — Encarregado de enrolar o Miguel para não procurar Lavínia antes da hora e não deixar que ele esbarrasse com as pistas fora de ordem (sim, ele trabalhou nos bastidores);
Mari — Enquanto tudo isso acontecia estava na sua casa antiga, que agora voltava a ser sua, ajudando na mudança e aguardando chegar o período da tarde, quando poderia ir para escola e encontrar Miguel.

Amei a publicação, você tem um grande talento para a escrita, gostei d+ de seu blog. Parabéns menina ^.^).
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